quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nuances e Meandros


A solidão agora não é tão sólida, como antes,
Não têm a casca de rinoceronte das horas.
Não é tão calcária, ardor assoprado.
Afago, mormaço, uma tênue sofreguidão,
Suportável, respingo de chuva, água morna,
Luva destinada, inexoravelmente, a mão.

E tua privação é uma ausência disfarçada,
Deslocada pelo bater das asas de um pássaro.
Quase companhia, diria, de fato e direito,
Um estar próximo sem precisar tá junto.
Estar mais junto que muito acompanhado.
  
Fábio Murilo, 20.04.2017

quinta-feira, 30 de março de 2017

Onipresente


Tua atenção é uma coisa física,
É uma coisa intensa, a mão.
Sempre em minha intenção.
É uma preocupação enorme,
Que me envolve, me comove.
Que me absorve e me aceita.
E em ti aposto todas as fichas,
Adoro de devoção, sem um senão.

Tua atenção é uma nuvem, aragem,
É uma brisa fresca num final de tarde.
Todo dia, toda noite, toda ausência.
É uma conquista, é um presente,
É um achado, é ampla, é chão,
É tanta consideração.

Fábio Murilo, 30.03.2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

Aos que Nunca se Permitem


Alguns não tem sol, nem sal,
Cheios dos nexos, excessivo tino.
Espécie sem sumo, formal, formol.
Poste, lodo, o tempo todo rodovia
Margeada de verdejante monotonia.
Sem uma parada no acostamento,
Um desvio, uma descida, um atalho.
Uma pausa pra um refrigerante.

Reprisados, represados, sonolentos,
Que de olha-los também dormimos.
Seres apagados, que não ardem,
Sem alarde, fio de voz, nem animo.
Que não variam de vez em quando
E envelhecem o tempo inteiro.
Que não saem do contexto,
Seguem uns textos decorados,
Atores com seus bolores, odores,
A eles mesmos representados.

Sem luzes nos cabelos, no corpo inteiro,
 Uns gelo, amenos, somenos, ao menos, jamais!
Rosas sem perfume, artificiais.

Fábio Murilo, 18.03.2017

sábado, 11 de março de 2017

Preciosa


Você acalenta meu coração,
Prevê, provê minhas necessidades.
Você sabe, como se aqui estivesse.
Tivesse o dom da premonição.
Como um raio de luz caindo do teto,
Na percepção de um menino absorto,
Brincando com o reflexo no chão,
Nunca esperar é tarde, é fascinação.

E eu que a quero tanto, espero, mesmo
Que agora em pleno verão, o sol a pino,
Passe a apresentar eclipses totais.
E na confusão de noites de uma hora
Pra outra sentido-me só, embora,
As noites, durem pouco, demoram mais
Pra quem, além de você, não tem outra
E não em outras o que apraz.

Fábio Murilo, 11.03.2017