sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Encontro


Chega de maneira inesperada,
Como trovoada em dia ensolarado,
Como se nunca houvesse chegado.

Atendendo ao meu chamado,
Como recado enviado por telepatia,
Lembra assim de mim, do nada.

Como se o universo conspirasse
E nesse lapso de tempo
Soprasse em teu ouvido.

Chega com tua rizada inconfundível,
Já não sou apenas eu,
Agora estás comigo.

Fábio Murilo, 28.11.2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Insegurança


Dá-me um pouco de tua tranquilidade,
Do pouso suave de teus pássaros,
Teus passos indeléveis, tão leves,
Teus pés descalços na areia branca.

Frágil é minha paz, inconsolável,
É meu desassossego, meu medo.
Medo do destino, da solidão,
Medo de mim mesmo,
Dos fantasmas da minha insegurança.

Penetra comigo na grande noite,
No vale de todos os perigos.
Certeza só de ida, não de chegada.
Chegar deve ser triste,
O fim de todos os caminhos,
O ninho, a certeza, o vazio.
Bom é a caminhada, o improviso.
A vida sem dias, nem hora marcada,
Sem calendários, nem avisos.
Um grande banquete ao ar livre,
Um passeio público, lúdico.
Deslizando distraidamente
Na superfície dos segundos,
Sem ontem, nem amanhã.
Capturar cada cheiro,
Cada cor, cada brilho,
Cada resquício de prazer,
Cada indício de bem estar...
E o que tiver de ser, será.

Fábio Murilo, 21.11.2014

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Pacato Cidadão


Há a resignação em ser comum,
De ser apenas mais um na multidão.
De não oferecer riscos, só risos fáceis.
De ser um cão adestrado, obediente,
Como toda gente, indiferente.

Há de se polir bem a armadura,
Escovar os dentes, sorrir sempre,
Feito dançarina de auditório.
Mostrar-se previsível, decifrável,
Plausível, jamais contraditório.

Manter-se sempre alerta,
Pra não deixar a porta aberta,
O quadro torto, o mato alto,
Chegar atrasado, espirrar...
Submisso, bom moço,
Reto como um poste,
Discreto como um poço.

Fábio Murilo, 14.11.2014

Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa/Jô Soares

Society - Eddie Vedder

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Os Confrontos


Ridículo é morrer, fora isso, quase tudo é licito.
Tudo deve ser dito, teu grito a despencar do edifício,
A espantar o tédio e causar alarde às 6 da tarde.

Viver é a nossa sina, nosso destino, desatino.
Sofrer é uma possibilidade, doer após o exercício.
Sinal que surtiu efeito, aconteceu, foi concluído.

Ruim é o impasse, é não ter acontecido.
Por medo de sofrer, ter recuado, não ter arriscado.
Ficar só no que teria sido se tivesse tentado.
Receio das feridas se tivesse errado. Frustrado
Por não ter sido pleno, nessa vida mais ou menos.

Fábio Murilo, 07.11.2014

A Chuva Cai no Recife - Mauro Mota